Por Kelly Mendes:

Sou enfermeira há 12 anos, nove dos quais em Unidade de Cuidados Intensivos Médico-Cirúrgicos em Toronto. Concluí a  licenciatura em enfermagem em Portugal, e voltei às minhas origens Canadianas para trabalhar neste ramo. O processo foi demorado mas valeu muito a pena, por melhores condições de trabalho e remuneração, entre outros aspetos. Depois de dois anos a trabalhar numa unidade de internamento de medicina, houve a oportunidade de ingressar numa  pós graduação em enfermagem em cuidados intensivos. Aqui estou depois de nove anos…

Se eu dissesse que ser enfermeira é fácil, estaria a mentir! Contudo tem momentos muito bonitos e gratificantes. Poderia escrever um livro sobre situações que já vivi na minha profissão, mas acho que o que passamos na recente pandemia foi o mais marcante, falo pela própria experiência.

A nossa unidade foi uma das primeiras da cidade a enfrentar a onda de doentes críticos com a Covid-19. Muito pouco se sabia sobre o processo desta doença, já para não falar na falta de material de proteção pessoal e de alguns medicamentos. O nível de stress e medo estava em alerta máximo.

Falo em medo não só por mim como enfermeira da linha da frente, mas pela minha família (na altura uma filha pequena) e amigos, medo que eu poderia trazer para casa esta doença e infeta-los.

Existem muitas opiniões sobre a pandemia, daquilo que se fez ou se poderia ter feito, mas é muito fácil falar quando não se esta a viver de perto 24 horas por dia.

São turnos de 12 horas, de dia ou de noite, fins de semana e feriados, muitas vezes sem 10 minutos para se sentar e para ter uma simples refeição ou até mesmo, utilizar a casa de banho. Ir trabalhar e enfrentar situações que nenhuma formação te pode preparar, como segurar a mão de doentes que nos dizem “por favor não me deixe morrer”, ou prestar cuidados a um doente ligado a suporte avançado de vida, enquanto a sua esposa estava no quarto ao lado na mesma situação.

Por vezes ouço o público falar que os enfermeiros estão distantes, sempre a correr e sem paciência. Penso que seja uma maneira de proteger o coração e a mente de um desgaste emocional e físico enorme, uma “carapaça” para nos proteger daquilo que vivemos dia após dia. Há também a questão de falta de enfermeiros.

Muitas vezes um enfermeiro tem de fazer o trabalho de dois ou de três, pois o hospital nunca fecha as portas nem vira as costas aos doentes. É desculpa? Não! Apenas pedimos compreensão e paciência, pois somos também  “gente que cuida de gente”.

Contudo, são muitas as situações que nos dão orgulho daquilo que fazemos. Como enfermeira de cuidados intensivos, vivo muitas situações de fim de vida dos doentes. Nunca será fácil, já são alguns anos a aprender a lidar com estas situações, como confortar aquele doente e aquela família.

Considero que a parte fundamental do enfermeiro aqui é dar dignidade e conforto ao doente nos seus momentos finais, poder explicar à família o que se esta a passar, segurar-lhes na mão e dar apoio quando mais necessitam, algo do que me orgulho enquanto enfermeira.

Também somos parte do processo de recolha e doação de órgãos. De uma situação difícil e triste, podemos dar nova vida a varias pessoas.

Mas não são só momentos tristes! Doentes que passam por cirurgias para remoção de tumores, e a nossa cara é a primeira que vem quando acordam, e podemos dizer-lhes que decorreu tudo bem, são momentos únicos! Assim como doentes, em estado crítico, ligados a suporte de vida, muitas vezes, durante semanas, que voltam meses mais tarde para nos visitar! Quantas profissões podem dizer o mesmo?!

Apesar das suas dificuldades, que são inúmeras, não me vejo a fazer outra coisa! Enfermagem não é o que faço, ser enfermeiro é o que sou, e volto à expressão tão conhecida entre os enfermeiros da Drª Wanda Horta, “o enfermeiro é gente que cuida de gente”.

 

-Enfermeira nos cuidados intensivos

 

 

 

 

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