José Maria Eustáquio, 58 anos, natural de Peniche, filho de pais nazarenos, chegou ao Canadá em 1974. Estudou na universidade de York na faculdade de educação. Tem um bacharelato em artes, mas as vicissitudes da vida levaram-no a outras áreas profissionais. Começou na indústria do retalho, passando pelo departamento comercial da Labatt Brewing Company, 92.5 Kiss FM e LiUNA. Atualmente é uma dos parceiros do Camões Entertainment Group. Foi agraciado com a Comenda da Ordem de Mérito e com a Comenda da Ordem Infante D. Henrique, além do Prémio de Mérito da ACAPO por duas vezes, entre outros reconhecimentos. É um dos sócios da Academia do Sporting de Toronto. No associativismo foi presidente da Casa do Benfica de Toronto. Desde 1997 que é dirigente na Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas do Ontário, 16 deles como presidente. Joe Eustáquio, como é conhecido, aceitou sentar-se connosco e falar entre vários temas, sobre a Semana de Portugal 2023, numa altura em que imigração oficial portuguesa para o Canadá está a assinalar 70 anos.

TM: Este ano é importante para a comunidade portuguesa no Canadá, até porque está a assinalar 70 anos de imigração para o Canadá. O que representa para si este marco ?

JE: Esta efeméride dos 70 anos de imigração oficial portuguesa para o Canadá é importante. Mas não nos podemos esquecer que estamos a sair de três anos de uma pandemia onde o movimento associativo, a atividade dos clubes, uma Semana de Portugal que teve lugar o ano passado com a parada, mas desde 2017, estas festividades não têm sido da dimensão, que a nossa comunidade conhece desde há 30 anos. Agora há uma tentativa para tentarmos fazer uma celebração digna, para um confirmar, de que a nossa participação associativa ainda é visível e ativa, onde os clubes membros da Aliança ainda permanecem, alguns desapareceram durante a pandemia, devido à situação económica. Mas claro, o foco desta Semana de Portugal de 2023, são sem dúvida os 70 anos de imigração oficial portuguesa para o Canadá. A chegada foi no dia 13 de maio de 1953, entendemos que o tema deste ano das celebrações da Semana de Portugal, não são só os 70 anos, mas também para chamar a atenção para este projeto do Centro Magalhães.

TM: Do passado ao presente, durante estes 70 anos, como analisa a evolução da comunidade portuguesa no Canadá?

JE: Há opiniões diferentes, incluindo há pessoas que pensam que a nossa comunidade não é unida. Considero o oposto. O que a comunidade portuguesa no Canadá, mais especificamente em Toronto, tem mostrado, há muitos anos, ainda no tempo onde a comunicação social fazia um trabalho quase diário e cívico, quando há grandes infelicidades à volta de Portugal, seja de terramotos, ou chuvas torrenciais, ou a situação dos incêndios em Pedrógão, a comunidade é unida e participa. Consegue angariar, não só fundos, mas uma voz de unidade e cívica, para mostrar que somos uma comunidade muito competente. Ao nível de comércio, a comunidade tem um peso enorme, não só visível pelas várias ruas da cidade de Toronto, já não é só a Augusta, ou a College, ou a Dundas. Agora é muito mais do que isso, nomeadamente na St Clair ou na Rogers. Mas também fora da cidade de Toronto. Para mim o que talvez, tenhamos falhado, é na vertente cívica e política na sociedade canadiana. O que o Português deveria ter aprendido com a comunidade italiana, é que a participação política é importante. Acho que podíamos ter uma voz maior. Em momentos de necessidade, como é o caso da falta de documentação de muitos portugueses, nunca tivemos um poder, ou representação, com as portas abertas de Otava para criar situações de condições positivas, de meter os portugueses legais. Com esse movimento de legalização, há também o crescimento do cidadão. O maior problema que temos, é que o português ainda não é ativo quando chegam as eleições, não vota. No momento em que não vota, não tem voz.

TM: A não participação da comunidade nas decisões políticas é um dos principais problemas da comunidade?

JE: O português tem de ser mais ativo na parte política deste país, não só em termos federais e provinciais, mas também e mais importante, a vertente municipal. Porque a parte municipal é aquela que dá voz, poder e representação.

TM: O associativo português tem sido um dos alicerces da comunidade ao longo dos anos. Recomenda-se?

JE: Sempre digo que é um privilégio estar a liderar a Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas do Ontário. Desde 1997 que estou na ACAPO. Se olharmos para a representatividade dos outros grupos étnicos, em termos de horas, dedicação, ou trabalho voluntário, ninguém é igual à comunidade portuguesa. Na opinião de alguns, temos muitas associações, com a pandemia, algumas provavelmente desapareçam. Portugal é vasto, não só pela parte das ilhas, mas também o continente, é totalmente diferente na vertente cultural. O português tem a tentação de ser muito sólido e afeto à cultura que representa. O associativismo italiano desapareceu há 30 ou 40 anos, ou gregos, também. Tenho grande fé de que a cultura portuguesa será mantida, porque o português adora a sua pátria e a sua cultura.

TM: A existência de várias associações portuguesas no Canadá representa uma divisão na comunidade?

JE: Nem por isso. Quando cheguei cá, em 1974, era na altura criança, fui criado num bairro, onde existiam mais pessoas provenientes dos Açores, do que do continente, naquela altura, os açorianos eram a maioria aqui. Percebi que havia diferenças entre, tanto com os açorianos como as pessoas do continente. Nunca tive conhecimento disso, enquanto jovem em Portugal. O que aconteceu, foi a liderança na altura, a igreja católica teve uma grande influência nessa divisão. Não considero que estamos separados. Ao contrário, acho que é exemplar o desfile do Dia de Portugal, que é feito na Dundas Street West, há 36 anos. Mostra que o português é muito unido e que gosta de celebrar as suas cores, a sua bandeira e o seu hino, que é o mais bonito do mundo.

TM: A Semana de Portugal tem início com um evento programado para o dia 04 de março, a Gala de Entrega dos Prémios de Mérito e das Bolsas de Estudo. Mais cedo do que o habitual?

JE: Quero deixar um agradecimento ao vice-presidente da organização, Jack Oliveira. Foi decidido realizar este evento mais cedo, normalmente tem lugar em maio. Fizemo-lo por dois motivos: primeiro, para não criar competição com as celebrações dos 70 anos, e também devido às eleições na Local 183. A direção sindical decidiu que este evento tinha de ter lugar em março. Não foi fácil, num curto espaço de tempo, mas também tem os seus aspetos positivos. Estamos certos de que vai ser uma grande noite, com entrega de bolsas, pela primeira vez, apresentadas por um clube membro da ACAPO e por uma empresa, que vai financiar essa bolsa. A mensagem é para mostrar unidade entre o comércio e o movimento associativo. Vamos também apresentar uma maior lista de Prémios de Mérito, normalmente apresentamos dois, este ano vamos ter algumas surpresas nesse sentido. Nos últimos três anos não se realizou este evento e precisamos de divulgar as pessoas ou grupos que nessa altura fizeram a diferença. Será uma noite que vai também chamar a atenção para o projeto do centro Magalhães, para que a nossa comunidade apoie este projeto, para que se torne uma realidade.

TM:O que o público pode esperar da Semana de Portugal 2023?

TG: As datas principais são 09, 10 e 11 de junho. A Parada terá lugar no dia 10 de junho, um sábado de manhã, uma hora mais cedo do que o habitual, às 10:00 da manhã. Temos um protocolo com a Associação Comercial do Little Portugal de Toronto, onde no mesmo fim de semana do ‘Do West Fest’, ocorre a parada. Queremos que seja assim no futuro. O encerramento ao trânsito da Dundas começa na sexta-feira à tarde, até domingo à noite. Nestes dias, há uma vasta programação de cultura e gastronomia portuguesa, folclore, artistas comunitários e de Portugal. A multidão com cerca de 500 mil pessoas que participam no festival, também permite mostrar a nossa cultura, não só aos portugueses. Para mim isso é uma grande vitória. Dou os parabéns à Anabela Taborda, a presidente da Associação Comercial, e à sua equipa, pela visão que tiveram na organização deste festival.

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