O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia convocou hoje as embaixadoras dos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá por ingerência nos assuntos internos do país, depois de acusarem de Moscovo de perseguir a oposição democrática.

“Devido à interferência grosseira nos assuntos internos da Rússia e a atividades que não correspondem ao estatuto diplomático, as embaixadoras dos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá foram convocadas ao Ministério dos Negócios Estrangeiros”, indicou, num comunicado, o departamento estatal russo.

Apesar de o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo não ter adiantado explicitamente as razões, as agências noticiosas locais dão conta de que Moscovo ficou desagradado com as críticas destes três países à condenação do opositor russo-britânico Vladimir Kara-Murza.

A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Maria Zakharova, deu a entender que as três embaixadoras – a norte-americana Lynne Tracy, a britânica Deborah Bronnert e a canadiana Alison LeClaire – serão convocadas “para lembrar o que os diplomatas devem ou não fazer”.

Na terça-feira, a diplomacia russa apoiou a decisão do tribunal e denunciou a “flagrante interferência” dos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá nos “assuntos internos” russos.

Kara-Murza foi condenado por um tribunal de Moscovo a 25 anos de prisão sob as acusações de “alta traição”, de espalhar “informações falsas” sobre o exército russo e de trabalho ilegal para uma “organização indesejável”.

O opositor foi condenado a uma pena cumulativa de 25 anos numa colónia penal, que implica condições de prisão mais rígidas.

Kara-Murza negou as acusações, que considerou de cunho político, e comparou os processos judiciais que enfrenta aos julgamentos durante o Governo do ditador soviético Josef Estaline.

As acusações contra Kara-Murza, 41 anos, também estão relacionadas ao discurso que realizou em 15 de março de 2022 na câmara dos representantes do Arizona, Estados Unidos, em que denunciou a guerra da Rússia na Ucrânia.

Os investigadores russos acrescentaram a acusação de traição quando o opositor já estava sob custódia, depois de ser detido a 11 de abril de 2022.

Detido em janeiro de 2021 após regressar da Alemanha, onde recuperou de uma tentativa de envenenamento que atribuiu ao Kremlin, Alexei Navalny, opositor e militante anticorrupção, foi condenado a dois anos e meio de prisão por um caso de fraude registado em 2014 e que denuncia como político.

Segunda-feira, os Estados Unidos consideraram que o opositor russo é vítima da “intensificação da campanha de repressão” do Governo russo.

“Apelamos à libertação imediata de Kara-Murza, bem como dos mais de 400 prisioneiros políticos na Rússia”, lê-se numa declaração do Departamento de Estado norte-americano, na qual Washington considera que a sentença teve na base “motivações políticas”.

No mesmo dia, e num comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo considerou “uma interferência direta nos assuntos russos” a reação do Governo britânico à condenação de Kara-Murza, refeindo ainda serem “inaceitáveis” os comentários do embaixador britânico em Moscovo sobre a sentença condenatória.

O Reino Unido, à semelhança da Alemanha, insurgiu-se contra a sentença cde Kara-Murza por alta traição e outros crimes, considerando tratar-se de uma decisão “politicamente motivada” e exigindo a “libertação imediata” do opositor russo, que também possui nacionalidade britânica, anunciando a convocação do embaixador russo.

“O Reino Unido continuará […] a pedir a libertação imediata de Kara-Murza”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, James Cleverly, num comunicado.

 

Foto: Pexels/Дмитрий Трепольский

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